quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Auto-Entrevista: Cartel da Cevada.


Editorial:
"...Muitas vezes é difícil conseguir tratar de assuntos como produção musical, mixagem e masterização. Não que o blog não tenha espaço para tanto, muito pelo contrário, mas apenas que é difícil "fotar" e tratar do assunto. Quando conseguimos, mostrar os pontos interessantes é ainda mais difícil, visto que somente quem esteve por dentro dos detalhes dos projetos poderia saber tais minúcias...

E é por esse motivo que surge essa sessão. Para que possamos tratar de assuntos que exponham pontos interessantes sobre nossa produção musical, mixagem e masterização, de uma forma descontraída, diferente e objetiva.

Espero que curtam!"

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Mateus: Oi Mateus.
Mateus: Oi Mateus.

Mateus: Cara, agora sim tu tá lindão com essa barba de homem das cavernas...
Mateus: Pois é foi complicado cultivar até chegar à perfeição!

Mateus: Eu imagino. O povo deve tá morrendo de inveja...
Mateus: Bah, com certeza!

Mateus: Então Mateus, eu sei que houve muitas coisas interessantes e divertidas na produção deste disco, e como ele é recente e está ainda no forno, vamos aproveitar que a ferrugem ainda não se apoderou da memória para começarmos do começo. Qual foi o plano, o que direcionou o trabalho?
Mateus: O Cartel é uma banda que funciona muito bem ao-vivo, são autênticos, honestos, tem muita energia e química. São bastante meticulosos e sabem o que querem, o que facilitou bastante meu trabalho, de forma que desde o início foi fácil saber a sonoridade que eu queria e que funcionaria com o material. O principal desafio não residia em criar uma identidade musical, visto que a trupe já tem isso de sobra, o que explica a agilidade das pré-produções, mas sim, criar uma identidade sonora. Direcionei-me em buscar sempre as texturas mais naturais e orgânicas possíveis, logo, eu fiz todas, ou quase todas as captações para o disco, levando em conta que eu precisaria captar também a ambiência, a dimensão, pois eu queria usar o mínimo de recursos externos (digitais) na criação da dimensão. Esse foi um dos motivos que me fez por exemplo, captar todas as trilhas de baixo com um sinal sendo mandado à um amplificador dentro de uma das salas; Durante a mixagem, a sonoridade dos room mics foi de importância fundamental, principalmente no som de bateria e das guitarras, e em algumas trilhas, chegou a ser o único sinal usado.

Mateus: Natural e orgânico...
Mateus: ...é diferente de transparente e cirúrgico. Tudo na produção do disco teve haver com cor, com personalidade; Mais uma vez fiz uma mixagem híbrida e busquei sim características únicas, horas indo para um lado mais "clássico", horas para um lado mais "inovador". Usei e abusei da não-linearidade da sonoridade das válvulas e dos transformadores. Isso foi um dos motivos que me fizeram utilizar muito periféricos como os Universal Audio 1176 e Universal Audio LA-610. Uma técnica que utilizei muito durante as mixagens, para que eu pudesse manter parte da naturalidade da coisa toda, enquanto moldava a sonoridade, foi fazer muito o uso de processamento paralelo, horas eu mandava uma caixa ao LA-610 com muita compressão e com uma equalização muito específica e retornava à outro canal do Pro Tools misturando ao sinal original, horas eu mandava um sinal do baixo à um canal com um EQ cheio de cor, mandava ao LA-610, saturava muito, adicionava à cadeia um excitador de harmônicos, trazia os sub-graves ao nível que eu queria e misturava à mix, horas eu mandava o buss de bateria...

Mateus: Tá eu sei que tú tri afim de falar da mix de voz...
Mateus: Sim! Uma das coisas mais interessantes da produção foi chegar ao som da voz. Desde o lançamento do primeiro single em maio passado, Brujeria, o Igor tava achando a sonoridade de voz muito clean. O dilema em que entrei era simples, o Manley Reference Cardioid aliado ao Neve AMEK Purepath CIB possuía a transparência, o brilho e o ar que eu queria, mas era o R0de K2 aliado ao LA-610 quem possuía a grosseria e o punch que buscávamos, porém, acertar corretamente os dois sinais estava bem complicado, até que, em uma certa noite, após um longo bate-papo com o Mr. Josephson himself! Assim, após alguns segredinhos, alinhamento delicado e acerto na equalização dos sinais, ta-dá! Tava lá, uma super cápsula com todos os elementos! Foi muito legal.

Mateus: E quanto à automação das trilhas? Esse foi um trabalho automation-heavy?
Mateus: Muito. Para acertar o groove e enfatizar os elementos, licks e fills mais importantes, usei e abusei de automações. O legal porém não foi programar as automações estáticas, como fazemos nos efeitos, pans, EQs e compressores, mas sim, as automações de groove e pulso mesmo. Tipo. Em alguns temas eu cheguei a mandar o sinal processado do baixo, por exemplo, à um fader da mesa e automava manualmente o volume de acordo com o pulso da fundação, gerando maior groove. O mesmo fazia com a panerização e nível de certos efeitos, com o nível de voz, etc. Cheguei a fazer vibrato no dedo hehe.

Mateus: A sonoridade das guitarras está longe da clássica...
Mateus: Sim. Novamente foi aquela coisa. Cor, personalidade. Eu queria fugir do óbvio e do direto, isso fez com que eu buscasse sonoridades bem características e efeitos "diferentes". Misturamos efeitos, aplicamos camadas e tratamentos "inusitados", tudo que pudesse trazer maior excitação e interesse às trilhas. O que quero dizer é que não me importava o quanto eu tivesse que girar knobs ou apertar botões para chegar na sonoridade que eu queria, desde que tudo soasse natural, real e verdadeiro.

Mateus: Mais uma vez obrigado Mateus pela entrevista interessantíssima!
Mateus: De nada. É sempre um prazer responder perguntas tão interessantes Mateus.

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